No dia 8 de outubro, quando o Flamengo entrou em campo contra o Santos, o espaço que até poucas semanas antes ostentava a marca da Betano no peito do uniforme rubro-negro trazia, em vez disso, a frase “Proibir não é proteger”, um gesto de protesto que resumiu bem o clima da primeira rodada do Brasileirão disputada sem patrocínio de casas de apostas nas camisas dos clubes da Série A.
A ausência das marcas de apostas nos uniformes é consequência direta da Medida Provisória 1.394/2026, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 25 de setembro, que proíbe que casas de apostas patrocinem uniformes de equipes esportivas no país, e cujo prazo para a remoção efetiva das marcas das camisas da Série A venceu em 6 de outubro, dois dias antes da rodada que colocou a proibição em prática nos estádios. A medida chega meses depois de o tema já ter passado pelo Senado, onde a CCT havia aprovado o fim da publicidade de apostas esportivas e aberto a disputa sobre o patrocínio a clubes que agora se tornou visível nos gramados.
Antes da proibição entrar em vigor, 14 dos 20 clubes da Série A de 2026 tinham casas de apostas como patrocinadoras máster da camisa, entre eles o Atlético-MG com a H2Bet, o Botafogo com a VBet, a Chapecoense com a ZeroUm Bet, o Corinthians com a Esportes da Sorte, o Cruzeiro com a Betnacional, o próprio Flamengo com a Betano, o Fluminense e o São Paulo com a Superbet, o Grêmio com a Pitaco, o Palmeiras com a Sportingbet, o Remo com a Vai de Bet, o Santos com a Novibet, o Vitória com a Bet7k e o Vasco, também patrocinado pela Sportingbet. Bahia, Mirassol, Athletico-PR, RB Bragantino, Internacional e Coritiba, que não tinham casas de apostas como patrocinadoras máster, não precisaram se adaptar à nova regra.
Entre os clubes afetados, a resposta do Palmeiras foi a mais discreta: a diretoria decidiu não buscar um patrocinador pontual para ocupar o espaço deixado pela Sportingbet e vai manter a área vazia enquanto a MP estiver em vigor, segundo apurou a Gazeta Esportiva. A presidente Leila Pereira afirmou que “foi uma decisão muito abrupta do governo, nós tínhamos contratos em andamento. Pegou todos os clubes de surpresa, é um valor extremamente significativo”, e lembrou que o contrato do clube com a Sportingbet segue válido até dezembro de 2027, com os valores da temporada atual já recebidos conforme pactuado.
O Flamengo seguiu caminho oposto ao transformar o espaço vazio em palanque de protesto, e integra o grupo de clubes que já recorreu à Justiça buscando suspender os efeitos da MP 1.394, segundo a CartaCapital, que estima perdas superiores a R$ 1 bilhão em receita de patrocínio para os clubes da Série A por causa da proibição. Outras equipes espalharam pelo estádio placas e camisas com frases como “Não se muda a regra no meio do jogo” e “Quem lucra com as bets ilegais?”, um coro que contrastou com a solução adotada pelo Vasco, que preencheu o espaço do antigo patrocínio máster com a estampa do programa de sócio-torcedor “Sócio Gigante”.
O impacto financeiro da mudança de regra fica evidente quando se olha a trajetória dos contratos: o valor total dos acordos máster de bets no Brasileirão saltou de R$ 496 milhões em 2023 para R$ 1,117 bilhão em 2025, crescimento de 125% em dois anos, enquanto a penetração desse tipo de patrocinador na Série A passou de cerca de 12 dos 20 clubes em 2023 para 18 dos 20 em 2025, antes de recuar para os 14 clubes registrados na temporada de 2026, já sob o efeito da proibição. Nenhum contrato ilustra esse crescimento melhor do que o do Flamengo com a Betano, que atingiu R$ 268 milhões em 2025, saindo de R$ 85 milhões em 2023 e R$ 110 milhões em 2024, alta de 215% em dois anos e o maior valor de patrocínio máster já registrado no futebol brasileiro até então.
Questionada sobre a possibilidade de o Palmeiras buscar um parceiro provisório para o espaço livre na camisa, Leila Pereira foi direta: “Não vamos colocar (parceiros pontuais), temos patrocinador, temos contrato até dezembro de 2027, e vamos honrar.”



