A casa de apostas Alfa Bet rompeu os contratos de patrocínio master com Grêmio e Internacional depois de parar de pagar os valores acertados com os dois clubes gaúchos. Levantamento do Giro do Mercado mostra que, somadas, as ações movidas pelos clubes na Justiça do Rio Grande do Sul totalizam R$ 89.236.991,52, o equivalente a cerca de 89% do valor que a empresa havia prometido pagar às duas agremiações em um único ano de patrocínio.
O Grêmio cobra R$ 28.902.289,82 da Alfa Bet, valor apresentado em ação protocolada no fim de 2025. O Internacional pede R$ 60.334.701,70 em processo movido em janeiro deste ano. Os dois processos tramitam sob sigilo, a pedido dos clubes, e ainda aguardam a citação da empresa.
Os contratos prometiam repasses de cerca de R$ 50 milhões por ano para cada clube, mas os pagamentos pararam de ser feitos ainda no primeiro ano de vigência. O Grêmio rescindiu o acordo em 1º de dezembro de 2025, após meses de parcelas em atraso, e anunciou a Energia Bet como nova patrocinadora master já para a partida seguinte, contra o Fluminense, segundo nota publicada pelo clube. O Internacional rompeu o vínculo pouco depois, também por falta de pagamento, e chegou a entrar em campo sem marca de apostas na camisa enquanto buscava substituto.
Em abril, a Alfa Bet chegou a firmar acordo para quitar parte do débito com o Grêmio, mas não cumpriu os pagamentos combinados.
Procurada, a empresa atribui a crise a uma reestruturação societária e a dificuldades financeiras ligadas aos custos da regulamentação, entre eles a licença de operação de R$ 30 milhões e novas obrigações tributárias. O fundador e diretor de operações da Alfa Bet, Matheus Antunes, confirmou as dificuldades e disse que a empresa busca um novo sócio para continuar operando. “Estamos conduzindo negociações visando a transferência da operação para um novo grupo investidor, com o objetivo de assegurar a continuidade da atividade e a adequada composição das obrigações perante credores”, afirmou Antunes.
O caso se soma a um movimento mais amplo de consolidação no mercado regulado de apostas. Das 187 marcas autorizadas a operar no país, dez concentram mais de 67% da receita do setor. A Alfa Bet responde por fatia marginal do faturamento nacional, com receita mensal estimada em R$ 3,5 milhões, abaixo do piso de R$ 5 milhões considerado necessário para sustentar uma operação sob as novas regras, segundo avaliação da Associação Nacional dos Jogos Legais.
Casas menores enfrentam ainda depósito de garantia de R$ 5 milhões exigido pelo regulador e alíquota de tributação sobre o GGR que já soma 12% e deve subir nos próximos anos. O aperto de caixa levou outras operadoras a recuar de patrocínios esportivos em 2026: a Bahia negocia rescisão com a Viva Sorte Bet, e Coritiba, Vasco e Santos também ficaram sem patrocinador master de apostas na temporada, ainda que por motivos distintos do calote registrado com Grêmio e Internacional. Em meio ao cenário de fusões no setor, casas menores têm buscado compradores para continuar operando.
O episódio reforça a atenção de clubes a cláusulas de garantia em contratos de patrocínio, tema que ganhou peso depois de o Brasileirão iniciar a temporada com marcas de apostas pagando R$ 613 milhões por ano só na Série A.



