O espaço mais valioso do uniforme do Grêmio segue vazio. Desde a rescisão do contrato com a Alfa Bet, no fim de 2025, o clube gaúcho completa sete meses sem fechar um novo patrocinador máster, segundo levantamento da BNLData publicado em 16 de julho. A única exceção no período foi uma ocupação temporária da EnergiaBet, que comprou o espaço por apenas duas partidas do Brasileirão.
Nos primeiros seis meses de 2026, o CEO Alex Leitão conduziu as negociações à frente do departamento comercial. Propostas de bets chegaram à mesa, mas foram recusadas por trazerem valores entre R$ 20 milhões e R$ 25 milhões anuais, patamar considerado insuficiente pela diretoria. A meta é aproximar-se dos cerca de R$ 50 milhões anuais que a Alfa Bet havia se comprometido a pagar antes de atrasar três parcelas seguidas e descumprir o acordo judicial firmado para quitar a dívida. O presidente Alberto Guerra rompeu o vínculo ainda no primeiro ano de um contrato que previa três temporadas.
A gestão descreve o momento como de mercado “retraído”. Isso porque as casas de apostas, que dominaram os investimentos em patrocínio esportivo nos últimos anos, esbarram agora em tributação mais alta sobre a receita bruta e em legislação mais restritiva, o que reduz a capacidade de aporte em publicidade. Some-se a isso a Copa do Mundo, que concentrou orçamentos de marketing das bets em ações globais e deixou o futebol de clubes em segundo plano durante o torneio.
O caso gremista não é isolado. O Fortaleza, rebaixado à Série B ao fim de 2025, chegou à mesma marca de sete meses sem patrocinador máster na camisa. A última empresa a ocupar o espaço foi a Cassino Bet, na derrota para o Botafogo por 4 a 2, em 7 de dezembro, partida que fechou a participação do time na Série A daquele ano. Ao ge, o gerente comercial do Fortaleza EC SAF, Victor Simpson, afirmou que o problema não é exclusivo do clube cearense e que outras equipes da própria Série B enfrentam a mesma dificuldade para fechar contratos másteres.
“As empresas ainda acompanham os desdobramentos da regulamentação do setor e os possíveis impactos futuros sobre o ambiente regulatório e tributário. Além disso, o contexto da Copa do Mundo concentra grande parte dos investimentos dessas empresas em ações globais”, disse Simpson. O dirigente destacou que o clube segue em conversas com empresas de diferentes segmentos, entre elas casas de apostas, e que busca um contrato compatível com a relevância da marca Fortaleza no futebol brasileiro.
O retrato ajuda a dimensionar quanto o apetite das bets por patrocínio esportivo mudou de fevereiro para cá. O Brasileirão 2026 começou com seis clubes de Série A sem patrocinador máster estampado na camisa: Santos, Grêmio, Internacional, Vasco, Bahia e Coritiba, segundo levantamento da revista Placar baseado em dados da Máquina do Esporte. Em 2025, apenas o Red Bull Bragantino ficava fora dessa lista, já que o espaço é ocupado pela própria marca de energéticos controladora do clube. Do grupo de seis, um já resolveu a pendência: o Vasco encaminhou acordo com a Sportingbet, com contrato válido até 2027.
A tributação de 12% a 15% sobre a receita bruta das casas de apostas, criada no bojo da regulamentação do setor, aparece como o fio condutor mais citado pelos próprios clubes para explicar o recuo. Um diretor de marketing de um clube de Série A, ouvido sem identificação pela reportagem da Máquina do Esporte, resumiu o impasse: fora das bets, poucos segmentos se dispõem a pagar valores parecidos, e as próprias casas de apostas hoje oferecem menos do que ofereciam há um ano.
Para o Grêmio, a equação também envolve prazo. A diretoria pretende um vínculo de quatro a cinco anos, o que exige garantias financeiras que nem sempre as bets em fase de ajuste fiscal conseguem oferecer com a mesma folga de dois anos atrás. O episódio da Alfa Bet, que deixou dívida também com o Internacional, reforçou a cautela do clube na hora de assinar um novo contrato de longo prazo com uma casa de apostas. A cota máster à parte, o departamento comercial gremista não ficou parado: o clube fechou 11 contratos de patrocínio em 2026, seis deles inéditos, somando R$ 150 milhões em receita publicitária, sinal de que a busca é por um parceiro específico para o espaço principal, não por patrocínio em geral.



