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Flutter cresce 64% no Brasil, mas motor é a Betnacional

Receita da Flutter no Brasil salta 64% no 2º tri, mas a base orgânica caiu 14% e jogadores ativos recuaram 6%, mostra balanço.

Por Rodrigo Salgado 25 de agosto 4 min de leitura
Resumo Receita da Flutter no Brasil salta 64% no 2º tri, mas a base orgânica caiu 14% e jogadores ativos recuaram 6%, mostra balanço.
Estádio Arena Pernambuco durante final do Campeonato Pernambucano 2024 entre Sport e Náutico, partida patrocinada pela Betnacional (Foto de arquivo: partida patrocinada pela Betnacional em 2024, não do resultado financeiro do 2º trimestre da Flutter.)
Foto de arquivo: partida patrocinada pela Betnacional em 2024, não do resultado financeiro do 2º trimestre da Flutter. (Foto: Federação Pernambucana de Futebol (Rafael Vieira) Public Domain Mark via https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sport_0X0_Náutico_Pernambucano_BetNacional_2024_Final_(53637170954).jpg)

Na teleconferência de resultados do segundo trimestre de 2026, a Flutter Entertainment apresentou aos investidores um número que, isolado, soa como celebração: a receita da companhia no Brasil cresceu 64% na comparação anual, alcançando US$ 72 milhões. O salto, no entanto, tem explicação que aparece no mesmo relatório e que muda o sentido da manchete, já que o crescimento foi puxado pela consolidação contábil da aquisição da Betnacional, concluída em meados do segundo trimestre de 2025 e agora incorporada às contas do grupo. Na prática, isso significa que boa parte do avanço vem de um efeito de soma de linhas contábeis, e não necessariamente de mais apostadores movimentando mais dinheiro nas plataformas que a Flutter já operava antes da fusão.

Quando a Flutter isola o efeito dessa incorporação e mede o desempenho orgânico do negócio no país, o quadro se inverte: a receita própria, sem contar a Betnacional, caiu 14% no período. O número de jogadores mensais ativos também recuou, com queda de 6% na média do trimestre, um sinal de que a base de usuários que já apostava com a companhia antes da fusão está encolhendo, mesmo com a marca ampliada. Lidos em conjunto, os dois indicadores sugerem que o crescimento anunciado ao mercado depende cada vez mais da aquisição para sustentar a linha de receita, enquanto a operação herdada pela Flutter perde fôlego por conta própria.

Colocado ao lado do resultado global do grupo, o tamanho da operação brasileira fica mais evidente. A receita mundial da Flutter somou cerca de US$ 4,33 bilhões no trimestre, alta de aproximadamente 3% na comparação anual, o que significa que o valor faturado no Brasil equivale a menos de 2% de tudo o que a companhia arrecadou no período. Para dimensionar a escala da empresa por trás desse número, a Flutter chegou a ter valor de mercado de cerca de R$ 220 bilhões na Bolsa de Nova York, com receita de R$ 68 bilhões em 2023, o que reforça que o mercado brasileiro, apesar de estratégico no discurso da companhia, ainda representa uma fração pequena do faturamento total de um grupo desse porte.

O balanço do trimestre não trouxe boas notícias apenas no recorte brasileiro. No consolidado global, a Flutter registrou prejuízo líquido de US$ 296 milhões, revertendo o lucro de US$ 37 milhões apurado no mesmo período de 2025. Quanto ao mercado brasileiro especificamente, a companhia atribuiu a desaceleração a medidas socioeconômicas adotadas pelo governo, entre elas a criação do cadastro centralizado de autoexclusão, que passou a restringir o acesso de apostadores que optam por se afastar das plataformas. É esse mesmo pano de fundo regulatório que a Flutter aponta como responsável por parte da queda de jogadores ativos e da retração da receita orgânica registradas no trimestre.

A origem dessa operação remonta a setembro de 2024, quando a Flutter anunciou a compra de 56% do Grupo NSX, dono da Betnacional, por cerca de US$ 350 milhões, avaliados então em algo entre R$ 1,9 e 2 bilhões. A estrutura do acordo prevê ainda que a Flutter possa adquirir os 44% restantes da NSX em até dez anos, o que elevaria o valor potencial total da transação para mais de R$ 5,6 bilhões. Da fusão nasceu a Flutter Brasil, entidade que reúne as marcas Betfair e Betnacional sob a mesma operação, formalizada num momento em que o mercado regulado de apostas no país era descrito como em fase de consolidação, com as licenças de operação valendo a partir de 1º de janeiro de 2025. Neste ano, o órgão regulador também autorizou 188 casas de apostas no país.

Apesar dos números orgânicos em queda, a companhia manteve o discurso otimista sobre o país. Em nota reiterada pelo CFO Rob Coldrake durante a teleconferência de resultados, a Flutter classificou o Brasil como um “highly attractive growth market” e reafirmou o compromisso de construir uma plataforma líder no território nacional, uma aposta de longo prazo que, por ora, convive com uma base de usuários orgânica em retração e um resultado global do grupo pressionado pelo prejuízo do trimestre.

Rodrigo Salgado
Quem escreve: Rodrigo Salgado
Repórter de mercado e negócios. Cobre operadoras licenciadas, parcerias, movimentações executivas e o mercado de afiliados de apostas no Brasil.