Na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, sede do Ministério da Fazenda, os números divulgados pelo Sistema de Gestão de Apostas (SIGAP) desenharam, ao fim do primeiro semestre de 2026, o retrato mais robusto já registrado para o setor de apostas de quota fixa no Brasil. O GGR das bets somou R$ 20,28 bilhões entre janeiro e junho, segundo levantamento da consultoria brmkt.co com base nos dados oficiais e reproduzido pela InfoMoney. O SIGAP é a plataforma oficial desenvolvida pelo próprio Ministério da Fazenda para regular, monitorar e fiscalizar o mercado de apostas, com base nas Leis 13.756/2018 e 14.790/2023. O resultado consolidava, em poucos meses, um ciclo de crescimento que viria a ser interrompido de forma abrupta pela proibição total do setor, decretada pelo governo em setembro.
O valor representa alta de 6,2% frente aos R$ 19,09 bilhões apurados no mesmo período de 2025, conforme a mesma série usada pela apuração, que também mostrou a expansão da oferta licenciada no país. O mercado chegou a 84 operadoras autorizadas e 193 marcas ativas no primeiro semestre de 2026, um salto em relação às 77 operadoras e 159 marcas registradas um ano antes, quando a regulamentação ainda completava seus primeiros meses de vigência plena. Um retrato parcial dos mesmos seis meses, publicado antes do fechamento definitivo da série, já havia apontado um GGR de R$ 20,07 bi no primeiro semestre de 2026, número que foi revisado na consolidação final do SIGAP.
O número de apostadores também cresceu junto com a receita: 30,4 milhões de pessoas fizeram ao menos uma aposta entre janeiro e junho de 2026. Em setembro, já fora do período coberto pelo balanço semestral, o SIGAP contabilizava 31,82 milhões de CPFs únicos com cadastro ativo nas plataformas de apostas, um indício de que a base de usuários continuava se ampliando mesmo depois do fim do semestre analisado.
Do total movimentado, R$ 2,49 bilhões foram destinados a políticas públicas no período. O esporte recebeu R$ 870,15 milhões, o turismo ficou com R$ 677,52 milhões, a segurança pública absorveu R$ 329,08 milhões e previdência e educação somaram juntas R$ 493,84 milhões.
O perfil do apostador seguiu concentrado nas faixas mais jovens e no público masculino em 2026: 71,9% tinham até 40 anos, enquanto 68,3% eram homens e 31,7%, mulheres. Um ano antes, no primeiro semestre de 2025, o perfil já indicava a mesma predominância: 71% dos apostadores eram homens e 28,9%, mulheres, com a faixa de 31 a 40 anos respondendo pela maior parcela, de 27,8%. No mesmo período, a fiscalização do setor levou ao bloqueio de 15.463 sites ilegais, enquanto a arrecadação federal somou R$ 3,8 bilhões, dos quais R$ 2,14 bilhões foram destinados por lei a programas sociais.
O avanço do GGR, porém, não significou necessariamente mais dinheiro entrando no sistema: os depósitos totais caíram 12,4% no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025, recuando de R$ 100,99 bilhões para R$ 88,48 bilhões. A soma do GGR de todo o ano de 2025 havia fechado em R$ 40,69 bilhões, o que mostra a dimensão do resultado do primeiro semestre de 2026 frente ao total anual anterior.
O desempenho não surgiu isolado. A regulamentação completa das apostas esportivas de quota fixa no Brasil entrou em vigor em janeiro de 2025, e o país fechou esse primeiro ano regulado como o 5º maior mercado de apostas do mundo, com receita de US$ 4,139 bilhões, atrás de Estados Unidos, Reino Unido, Itália e Rússia, segundo dados da consultoria Regulus Partners citados pela BBC.
Esse auge regulatório, no entanto, antecedeu em poucos meses o fim abrupto do setor: em 25 de setembro de 2026, a Medida Provisória 1.394/26 proibiu em todo o Brasil a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa, incluindo os patrocínios esportivos que haviam se tornado comuns no período analisado pelo SIGAP. A norma determinou o fim de novos depósitos a partir da própria data de publicação, concedeu aos apostadores prazo até 5 de outubro, às 23h59, para retirar voluntariamente seus saldos, e previu a saída do ar das plataformas a partir de 6 de outubro de 2026. Quem descumprir a proibição está sujeito a multas de até R$ 2 bilhões e à suspensão das atividades, e a medida ainda precisa ser aprovada pelo Congresso em até 120 dias para se tornar lei permanente. O governo justificou a proibição com o combate ao endividamento familiar e a problemas de saúde mental associados às apostas.
Antes da proibição, a avaliação oficial sobre os próprios dados do SIGAP era otimista quanto ao valor do instrumento de controle. “São dados concretos relativos à atuação regulatória, tratando temas como fiscalização, controle, além dos primeiros números, que refletem a realidade, e não apenas estimativas”, afirmou Regis Dudena, então secretário de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, em declaração à IstoÉ Dinheiro sobre o papel do sistema de monitoramento.



