Urgente Portaria fixa três avisos obrigatórios em bets
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Bets tiraram R$ 62,5 bi das famílias em 2025, diz Comsefaz

Boletim do Comsefaz vira termômetro do debate sobre tributação e proibição de apostas online no Congresso.

Por Rodrigo Salgado 18 de agosto 4 min de leitura
Resumo Boletim do Comsefaz vira termômetro do debate sobre tributação e proibição de apostas online no Congresso.
Rafael Tajra Fonteles, presidente do Comsefaz, discursando em audiência pública na Câmara dos Deputados (Foto de arquivo: Rafael Tajra Fonteles, presidente do Comsefaz, em audiência pública de 2019.)
Foto de arquivo: Rafael Tajra Fonteles, presidente do Comsefaz, em audiência pública de 2019. (Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados CC BY 3.0 via https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Rafael_Tajra_Fonteles,_presidente_do_Comsefaz.jpg)

Um número passou a circular nos gabinetes que discutem regras mais duras para as apostas online: R$ 62,5 bilhões foi o que as famílias brasileiras perderam líquido para as bets ao longo de 2025, segundo a terceira edição do Boletim Fiscal dos Estados, divulgado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados (Comsefaz). É esse valor, e não apenas as manchetes sobre o crescimento do setor, que vem sendo citado como base para propostas de tributação mais pesada e até de restrição ao mercado que tramitam no Congresso.

O montante não é o total apostado, mas a diferença entre o que os jogadores depositaram nas plataformas e o que receberam de volta em forma de prêmios, segundo o levantamento. O estudo foi produzido pelo Comsefaz em parceria com o Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (Cicef), com base em dados do Banco Central e da Estatística de Pagamentos por Atividade Econômica, a Epae, o que confere ao número um lastro em informações de movimentação financeira e não em estimativas de mercado.

A cifra ganha outro contorno quando comparada à receita oficial do setor. A estimativa do Comsefaz supera em R$ 25,6 bilhões o valor de R$ 36,9 bilhões que o Ministério da Fazenda registrou como receita das apostas autorizadas no país em 2025, uma diferença atribuída em parte à operação de plataformas fora do sistema regulado, conforme reportagem do O Tempo. Essa distância entre o que o governo arrecada e o que o Comsefaz mede é justamente o argumento que sustenta o pedido de secretários estaduais por mecanismos adicionais de fiscalização e cobrança.

O tamanho do mercado paralelo ajuda a explicar parte do descompasso. Um estudo da consultoria LCA, encomendado pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável, projeta que plataformas clandestinas respondem por entre 41% e 51% do total do setor de apostas no Brasil, uma fatia expressiva que escapa tanto da tributação quanto das estatísticas oficiais de receita e reforça o apelo do Comsefaz por um retrato mais amplo do dinheiro que circula fora do radar fiscal.

Também chama atenção o efeito de uma medida específica sobre o ritmo do setor. A proibição do uso de recursos do Bolsa Família para apostas, em vigor desde outubro de 2025, provocou uma desaceleração mensurável no crescimento das transações das bets, um sinal que os pesquisadores do Comsefaz e do Cicef leem como indício de que famílias de baixa renda tinham participação relevante nesse fluxo de apostas antes da restrição entrar em vigor.

Além da perda líquida, o boletim registrou a magnitude bruta das transações do setor: cerca de R$ 350,97 bilhões passaram pelas plataformas de apostas via Pix ao longo do período analisado, um volume que os pesquisadores associam à entrada das bets no mercado regulado, iniciado em janeiro de 2025, segundo levantamento do Metrópoles. Em proporção à renda das famílias, esse valor perdido representa 0,68% da Renda Disponível Bruta brasileira, um percentual que, segundo o Comsefaz, já é suficiente para pesar no orçamento doméstico de parte da população, ainda que pareça pequeno isoladamente.

É esse desenho, de dinheiro que entra e sai das casas de apostas sem retornar de forma proporcional aos apostadores, que resume a leitura do próprio estudo sobre o funcionamento do setor. Conforme o Boletim Fiscal dos Estados, “o setor passou a absorver recursos substanciais das famílias sem retorno proporcional, característica de mercados de apostas em que apenas parte dos valores apostados retorna como prêmio”, diagnóstico que passou a acompanhar cada nova rodada de discussão sobre limites, alíquotas e fiscalização das plataformas de apostas online no país.

Rodrigo Salgado
Quem escreve: Rodrigo Salgado
Repórter de mercado e negócios. Cobre operadoras licenciadas, parcerias, movimentações executivas e o mercado de afiliados de apostas no Brasil.