Foi no palco do Zetta Summit, em Brasília, em 1º de setembro de 2026, que Ailton de Aquino Santos, diretor de Fiscalização do Banco Central, afirmou que as apostas esportivas e os cassinos online são um elemento central do endividamento das famílias brasileiras. A declaração foi feita durante um painel dedicado a discutir os riscos do crédito ao consumidor, no mesmo evento voltado ao debate sobre o futuro da regulação financeira no país. “É indiscutível que bets são um elemento central do endividamento das famílias”, disse o diretor, segundo registrou o Poder360. A frase, vinda do diretor de Fiscalização do Banco Central, soou como um recado direto ao mercado de apostas.
Aquino não foi o único a tratar do tema naquele mesmo evento: o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto também subiu ao palco do Zetta Summit como palestrante. Em 24 de setembro de 2024, ainda à frente do Banco Central, Campos Neto já havia classificado como “bastante preocupante” o crescimento das apostas sobre a inadimplência das famílias, citando alta de 200% no ticket médio das transferências via Pix para casas de apostas entre janeiro e setembro daquele ano.
Questionado sobre eventuais contestações à sua fala, o diretor foi taxativo ao afirmar que qualquer versão diferente da tese de que bets não contribuem para a inadimplência das famílias seria fake news, segundo o InfoMoney. A escolha das palavras deixou claro que a instituição não pretende relativizar o peso das apostas na análise do crédito ao consumidor. Para Aquino, o desafio que se impõe agora é técnico: o Banco Central precisa adotar uma visão macroprudencial voltada especialmente para as linhas de crédito mais caras, como o cartão de crédito e o crédito não consignado, modalidades historicamente associadas ao ciclo de endividamento que as apostas ajudariam a alimentar entre famílias de renda mais baixa.
O diretor foi além ao levantar uma pergunta que soa como aviso direto ao mercado financeiro digital: ele questionou se é apropriado que carteiras digitais e páginas iniciais de aplicativos financeiros mantenham links diretos para plataformas de apostas. A pergunta se dirige a fintechs e bancos digitais que hoje intermedeiam parte do fluxo de pagamentos das casas de apostas licenciadas no país.
Segundo Aquino, o Banco Central já trabalha em uma agenda de transparência sobre endividamento e condições de acesso ao crédito, com medidas que devem ser apresentadas nos próximos meses, passando pelo crivo do Comitê de Estabilidade Financeira (Comef) e do Conselho Monetário Nacional (CMN). A menção aos dois colegiados indica que a discussão sobre bets passou a ter tratamento de agenda institucional dentro do Banco Central.
Aquino ocupa a diretoria de Fiscalização do Banco Central e chega a essa função com formação em pós-graduação em Contabilidade Internacional e em Direito, Estado e Constituição, segundo currículo divulgado pela própria autarquia.
Ao encerrar sua participação no painel, o diretor resumiu o raciocínio que guia a atuação da diretoria de Fiscalização diante do fenômeno das apostas: “Precisamos ter uma visão macroprudencial, especialmente das linhas mais caras, cartão de crédito e crédito não consignado”, disse Aquino.



