No coração financeiro do país, onde torres comerciais concentram sedes de fintechs, bancos digitais e agora também operadoras de apostas online, o balanço dos dois primeiros meses de 2026 confirma um movimento que já não surpreende quem acompanha o setor de serviços da capital paulista: as plataformas de apostas sediadas em São Paulo faturaram R$ 1,4 bilhão entre janeiro e fevereiro, um avanço de 21,2% sobre o mesmo intervalo de 2025, período em que a cidade consolidou de vez sua posição como o principal polo regulado do país. Os números fazem parte da Pesquisa Conjuntural do Setor de Serviços (PCSS), conduzida pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), que monitora mensalmente o desempenho das empresas de serviços com sede na capital, entre elas as operadoras de apostas online que escolheram a cidade como base de suas operações regulamentadas.
A série mensal levantada pela federação, no entanto, não seguiu uma trajetória linear ao longo do ano, e é justamente essa oscilação que ajuda a dimensionar o peso do polo paulistano no faturamento nacional do setor. Em fevereiro, isoladamente, houve uma queda de 2,8% ante o mesmo mês de 2025, recuo que a própria FecomercioSP atribuiu ao efeito calendário do Carnaval, que caiu justamente naquele mês em 2026, distorcendo a base de comparação sem indicar uma reversão da tendência de crescimento do segmento. Já em março, o quadro voltou a se inverter com força: o faturamento das bets sediadas na cidade chegou a R$ 1,7 bilhão, uma alta de 27,3% sobre o mesmo mês do ano anterior, confirmando que o recuo de fevereiro havia sido pontual e não estrutural.
O mês de janeiro, por sua vez, foi o que produziu o resultado mais expressivo da série até aqui, com faturamento de R$ 2,2 bilhões, crescimento anual de 44,4% sobre o mesmo período de 2025, quando o segmento havia movimentado R$ 1,5 bilhão na cidade. Segundo a apuração do faturamento das bets em janeiro, esse salto representa a segunda maior alta mensal já registrada na série histórica do indicador setorial da FecomercioSP, atrás apenas de um pico anterior não detalhado pela fonte, o que ainda assim posiciona o início de 2026 entre os melhores momentos já medidos pela pesquisa para o segmento na capital paulista.
Olhando para um horizonte mais largo, o acumulado de janeiro a junho de 2026 mostra crescimento de faturamento de 23,1% sobre igual período de 2025, o que mantém as apostas online entre as atividades de maior expansão dentro de todo o setor de Serviços monitorado pela pesquisa da FecomercioSP. Não é mais um fenômeno de pico isolado, mas um patamar que se sustenta mês após mês, e que já levou a entidade a descrever as apostas online como uma das atividades mais relevantes do setor de Serviços da maior metrópole do Brasil.
Para explicar esse avanço, a FecomercioSP aponta um conjunto de fatores que se reforçam mutuamente: a digitalização acelerada do consumo, a consolidação do Pix como principal infraestrutura de pagamento instantâneo do país e o alto uso das plataformas via dispositivos móveis, que reduz drasticamente a barreira de entrada para novos apostadores. Uma sondagem da própria federação apontou ainda que cerca de um terço dos paulistanos que apostam em plataformas online o fazem com o objetivo declarado de aumentar a renda doméstica, um dado que ajuda a explicar por que o crescimento se mantém mesmo em meses de calendário desfavorável como o de fevereiro.
Esse movimento também não fica restrito ao próprio setor: segundo a FecomercioSP, o crescimento das apostas produz efeitos sobre segmentos dependentes do consumo discricionário, como varejo, lazer, alimentação fora de casa, turismo e serviços pessoais, áreas que competem pelo mesmo orçamento do consumidor paulistano. Uma leitura desse cenário, publicada pelo Monitor do Mercado, resume o diagnóstico da federação sobre por que a regulação, sozinha, não tem sido suficiente para conter o apetite do consumidor pelas plataformas. Como resume Kelly Carvalho, assessora econômica da FecomercioSP: “O ambiente digital, com publicidade algorítmica e pagamento instantâneo, segue com um poder de atração muito superior ao das barreiras regulatórias.”



