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Legislação

SPA pode encolher ou ser extinta após MP das bets

Com o fim do mercado regulado, governo avalia reduzir a Secretaria de Prêmios e Apostas e mantê-la só na fiscalização.

Por Camila Duprat 29 de setembro 4 min de leitura
Resumo Com o fim do mercado regulado, governo avalia reduzir a Secretaria de Prêmios e Apostas e mantê-la só na fiscalização.
Fachada do Palácio do Planalto em Brasília, arquitetura de Niemeyer, dia ensolarado (Foto de arquivo: Palácio do Planalto, sede do Executivo em Brasília.)
Foto de arquivo: Palácio do Planalto, sede do Executivo em Brasília. (Foto: Michel Temer CC BY 2.0 via https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Planalto_panorama.jpg)

O governo avalia reduzir a estrutura da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) ou até extingui-la, mantendo apenas as funções de fiscalização do mercado ilegal e de monitoramento das loterias, segundo apurou a CNN Brasil. A discussão ganhou força porque o mercado que a secretaria foi criada para regular deixou de existir legalmente. Desde 25 de setembro, a Medida Provisória 1.394/2026 proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa em todo o território nacional, inclusive quando ofertadas por agentes baseados no exterior. A partir de agora, a dúvida que ronda o Ministério da Fazenda é até que ponto essa secretaria ainda se sustenta.

O que a SPA fazia até agora?

A Secretaria de Prêmios e Apostas foi criada no início de 2024, vinculada ao Ministério da Fazenda, para fiscalizar a arrecadação das apostas então legalizadas no país. A estrutura foi planejada para 38 servidores, mas hoje reúne mais profissionais do que isso, cedidos pelos ministérios da Justiça, do Esporte e da Casa Civil.

A pasta projetava uma arrecadação anual de R$ 2,5 bilhões com as bets. Esses recursos eram distribuídos a outras áreas do governo, entre elas a Saúde, e agora deixam de existir com o fim do mercado regulado.

Por que a redução da SPA está sobre a mesa?

Sem apostas legalizadas para fiscalizar, parte da estrutura perde a função para a qual foi desenhada. O impasse é resumido por fontes ouvidas pela CNN Brasil: “há quem defenda que sim, mas seria preciso um enxugamento dessa pasta”. A frase indica que a extinção completa da SPA não é consenso dentro do governo.

O que motivou a proibição das bets?

Lula assinou a MP em 25 de setembro de 2026, proibindo a operação das casas de apostas até então reguladas no país. No mesmo período, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, já sinalizava a motivação do governo para a medida.

“A gente precisa estar do lado da população brasileira, do lado das famílias brasileiras”, disse Durigan. O ministro classificou as apostas online como um problema grave de saúde pública.

O que a MP muda na prática para o setor?

A proibição abrange apostas sobre eventos esportivos reais e sobre eventos de jogos online, os chamados virtuais. Outras modalidades loteríricas já autorizadas por lei não são atingidas pela norma.

A MP também determina a extinção das concessões, permissões ou autorizações estaduais e distritais para exploração de apostas de quota fixa, dentro do prazo previsto no texto.

Quais são os prazos para devolução dos valores aos apostadores?

A SPA estima que cerca de R$ 1,7 bilhão precisam ser devolvidos a 22,9 milhões de apostadores que mantinham saldo nas plataformas agora proibidas. O cronograma oficial segue quatro etapas, encerradas em menos de três semanas:

  1. Até 5 de outubro, os apostadores podem sacar voluntariamente os valores;
  2. Em 6 de outubro, sites e aplicativos devem sair do ar;
  3. Em 7 e 8 de outubro, as bets devem informar aos bancos os saldos remanescentes por CPF;
  4. Até 14 de outubro, os bancos devem concluir a devolução aos clientes.

Como fica a fiscalização do mercado ilegal?

Enquanto a discussão sobre o futuro da SPA avança, o rastreamento de operações irregulares também cresce. Entre 25 e 27 de setembro, o monitoramento identificou 415 novos domínios com indícios de oferta irregular de apostas, elevando o total rastreado de 295 para 710, uma alta de 141% em apenas dois dias.

Uma força-tarefa dos ministérios da Justiça e da Fazenda já havia retirado do ar 506 sites suspeitos de operação irregular até 27 de setembro. Semanas antes da proibição, o Giro do Mercado já havia mostrado como uma portaria da SPA mirava o bloqueio bancário de bets ilegais.

A proibição pode ser derrubada?

Em 28 de setembro, a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) entraram com uma ação no Supremo Tribunal Federal para derrubar a proibição. O desfecho da disputa jurídica ainda depende de decisão da Corte.

Internamente, o Palácio do Planalto já havia consultado a Advocacia-Geral da União e o Ministério da Justiça antes de editar a norma. As duas pastas foram ouvidas sobre como estruturar juridicamente a proibição e sobre a possibilidade de o Congresso alterá-la mais adiante.

Camila Duprat
Quem escreve: Camila Duprat
Advogada especializada em direito do jogo e compliance regulatório. Acompanha a regulamentação das apostas no Brasil desde a Lei 14.790/2023 e escreve sobre o que muda na prática para operadoras e afiliados.