Mateus Simões anunciou, no fim de setembro, que o estado passará a patrocinar diretamente os três maiores clubes de futebol mineiros: o governador apresentou um pacote de R$ 32 milhões destinado a substituir, ainda que parcialmente, os contratos de publicidade de apostas esportivas que a nova legislação federal obrigou os clubes a encerrar. O anúncio, feito em 29 de setembro de 2026, chegou poucos dias depois de o governo federal editar, em 25 de setembro, a medida provisória que proibiu a publicidade e a operação das apostas de quota fixa no país, deixando os times mineiros sem suas principais fontes de patrocínio.
Do total anunciado, Atlético-MG e Cruzeiro receberão R$ 15 milhões cada, enquanto o América-MG ficará com R$ 2 milhões, segundo o detalhamento divulgado pelo governo estadual. Os recursos, segundo o Estado de Minas, não saem do caixa do Tesouro, mas de verbas publicitárias de três estatais mineiras, a Cemig, a Codemge e a Codemig. Simões fez questão de afastar qualquer leitura de que o dinheiro competiria com políticas sociais, afirmando ao Estado de Minas: “Zero dinheiro da saúde e da educação, não tem nem um centavo das áreas sociais”.
Essa aposta estatal, no entanto, substitui apenas uma fração do que os clubes perdiam com o fim dos contratos de bets: antes da proibição, o Atlético-MG tinha acordo de R$ 60 milhões anuais com a H2Bet, válido até dezembro de 2027, e o Cruzeiro recebia R$ 43 milhões por ano da Betnacional, em contrato que terminaria ao fim da temporada. Antes da restrição federal, segundo estimativa da consultoria Convocados citada pela CNN Brasil, as empresas de apostas chegavam a investir cerca de R$ 1,03 bilhão por ano em patrocínios aos clubes da Série A, e a própria estimativa oficial citada pela reportagem aponta que o aporte estadual representa cerca de um terço do que essas empresas pagavam aos clubes mineiros. A proibição havia sido antecipada meses antes, quando a Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação do Senado aprovou o fim da publicidade de apostas esportivas e deixou em aberto o futuro do patrocínio aos clubes.
Contrapartidas, cronograma e críticas
Em troca do aporte, o governo afirmou que os clubes vão oferecer contrapartidas sociais: ingressos com preços subsidiados para estudantes de baixa renda, apoio ao esporte paralímpico e investimento no futebol feminino, segundo o que Simões detalhou ao Estado de Minas. O governador insistiu que o dinheiro sai de verbas publicitárias das próprias estatais, não do orçamento social, numa tentativa de antecipar a crítica de que o estado estaria priorizando o futebol profissional em detrimento de áreas sensíveis.
Apesar do anúncio imediato, os recursos do novo patrocínio só serão efetivamente liberados a partir de janeiro de 2027, com um contrato que terá duração de um ano, segundo apurou o jornal O Tempo. O intervalo entre o anúncio e a liberação do dinheiro deixa os clubes mineiros sem substituto direto para os contratos de bets durante os últimos meses de 2026, justamente o período em que a proibição federal já está em vigor.
O governo também sinalizou a intenção de estender o modelo a outros dois clubes mineiros do interior, o Athletic, de São João del-Rei, que disputa a Série B, e o Uberlândia, que vai competir na Série C em 2027, segundo apurou o Lance!.
A reação política ao pacote, porém, não poupou o governo: parlamentares de oposição, de partidos como PT, PV e PL, classificaram o patrocínio como um gesto de desespero eleitoral e questionaram a prioridade de gastos frente a áreas como educação e segurança pública, segundo reportagem do O Tempo. A deputada estadual Beatriz Cerqueira, do PT, resumiu a crítica da bancada de oposição ao questionar a lógica do aporte: “Como que um estado que não manda dinheiro da merenda escolar, manda dinheiro para compensar bets para grupos privados?”



