A publicidade de apostas esportivas veiculada durante os jogos da Copa do Mundo de 2026 pela CazéTV entrou na mira simultânea de dois órgãos distintos. A Secretaria Nacional do Consumidor abriu apuração em 24 de junho de 2026 para investigar possíveis irregularidades na divulgação de casas de apostas durante as transmissões da plataforma.
Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, pasta à qual a Senacon está vinculada, a apuração partiu da análise de vídeos em que narradores, comentaristas e apresentadores promoviam casas de apostas durante as partidas, distribuindo QR codes, promoções e odds reforçadas em meio à cobertura esportiva.
O órgão vai avaliar se a CazéTV respeitou as regras de publicidade responsável previstas no Código de Defesa do Consumidor, que vedam mensagens capazes de incentivar apostas por impulso, sugerir ganhos fáceis ou minimizar os riscos financeiros da atividade. A emissora será notificada para prestar esclarecimentos antes de a Senacon decidir entre arquivar o caso ou abrir processo administrativo sancionador.
Dois dias depois, em 26 de junho de 2026, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária assinou uma liminar suspendendo três peças publicitárias veiculadas nas transmissões da CazéTV, ligadas às casas de apostas Betnacional, Bet365 e KTO. A decisão do relator Luiz Celso de Piratininga Jr. seguiu representações abertas pelo Conar em 25 de junho a partir de denúncias de consumidores.
De acordo com o Conar, os anúncios incentivavam o público a apostar em lances e eventos de baixa probabilidade durante as partidas, com destaque para as chamadas odds especiais. O relator apontou risco de o tom das peças induzir o espectador a erro sobre a real chance de ganho, além de preocupação com a exposição de crianças e adolescentes ao conteúdo.
A liminar concedeu prazo de cinco dias úteis para que as empresas informem ao Conar quais providências foram tomadas para adequar suas campanhas às regras do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária. A medida tem caráter cautelar e antecede a eventual abertura de processo formal no Conselho de Ética da entidade.
A CazéTV se manifestou publicamente após a suspensão, afirmando ter decidido adotar, a partir daquele momento, um padrão mais específico e conservador para as ativações de marcas de apostas em suas transmissões. O episódio ocorre num momento em que a fiscalização da publicidade de bets já era prioridade declarada da Secretaria de Prêmios e Apostas para 2026, e reforça a tendência de que ativações comerciais dentro da narração esportiva, e não apenas os intervalos comerciais tradicionais, passem a ser tratadas como zona de risco regulatório para operadoras e veículos de mídia esportiva.
O episódio também expõe uma sobreposição de competências entre autorregulação publicitária e fiscalização estatal. Enquanto o Conar atua a partir do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, com sanções que vão de simples recomendação à divulgação de censura pública entre associados, a Senacon pode aplicar as penalidades do Código de Defesa do Consumidor, incluindo multas administrativas, caso conclua que houve prática abusiva. Para operadoras e emissoras, isso significa responder a dois processos paralelos, com critérios e prazos distintos, sobre o mesmo conjunto de peças publicitárias.



