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Legislação

Bolsa Família: BC mostra peso das apostas nas famílias

Estudo do Banco Central mostra que 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões via Pix a empresas de apostas.

Por Camila Duprat 14 de setembro 4 min de leitura
Resumo Estudo do Banco Central mostra que 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões via Pix a empresas de apostas.
Cédula histórica de 1 Cruzeiro do concurso de 1966 do Banco Central do Brasil, em preto e branco, peça de acervo do museu do BC (Foto de arquivo: projeto histórico de cédula do Banco Central do Brasil (1966), sem relação direta com o estudo atual.)
Foto de arquivo: projeto histórico de cédula do Banco Central do Brasil (1966), sem relação direta com o estudo atual. (Foto: Governo do Brasil/Banco Central do Brasil/Museu de Valores do Banco Central do Brasil Public domain via https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Banco_Central_do_Brasil_1966.jpg)

Quanto as famílias do Bolsa Família enviaram para apostas?

Cinco milhões de beneficiários do Bolsa Família fizeram ao menos uma transferência via Pix para empresas de apostas em um único mês, somando R$ 3 bilhões, segundo o Estudo Especial nº 119 do Banco Central. Desse grupo, 4 milhões eram titulares do benefício e responderam por R$ 2 bilhões do total movimentado, o equivalente a 67% do valor.

O gasto médio por beneficiário apostador ficou em R$ 100 no período analisado, e cerca de 17% do total de cadastrados no programa participaram de apostas naquele mês.

O que motivou o levantamento do Banco Central?

O estudo nasceu de um pedido formal do senador Omar Aziz (PSD-AM), que buscava dimensionar o tamanho real do mercado de apostas online no país. A análise foi divulgada em 24 de setembro de 2024 e usa dados de transferências via Pix para rastrear o dinheiro que sai de contas de pessoas físicas em direção a empresas de apostas.

Como boa parte das apostas online no Brasil movimenta recursos por Pix, esse rastro bancário virou a principal ferramenta do Banco Central para tentar quantificar um mercado que, em grande medida, ainda opera sem registro formal.

A metodologia identificou 24 milhões de pessoas físicas que fizeram ao menos uma transferência Pix para apostas no período. É um número quase cinco vezes maior que o de beneficiários do Bolsa Família flagrados apostando no mesmo levantamento.

Como o presidente do BC comentou o achado?

Roberto Campos Neto falou publicamente sobre o resultado no dia da divulgação. “Uma parcela grande das pessoas que recebe Bolsa Família tem apostado nas bets”, disse o presidente do Banco Central em declaração à imprensa. Segundo ele, o uso do Pix para apostas cresceu 200% desde janeiro de 2024.

Qual é o tamanho do mercado não regulado identificado?

Em agosto de 2024, mês-base do estudo, o volume mensal transferido a empresas de apostas não registradas somou R$ 20,8 bilhões. O próprio Banco Central situa esse volume bruto mensal entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões.

Apenas 520 CNPJs estão formalmente classificados no CNAE oficial de apostas, e esse grupo movimentou R$ 300 milhões por mês, valor bem inferior aos R$ 1,9 bilhão movimentados por loterias tradicionais no mesmo período. A diferença mostra o peso das operações fora do CNAE oficial nas transferências rastreadas pelo BC.

Quem são os apostadores identificados pelo estudo?

De acordo com o levantamento, cerca de 22% dos adultos brasileiros usam plataformas de apostas. Desse total, 68% são homens, e quase metade tem até 30 anos, conforme a análise técnica publicada pelo Banco Central. Esse recorte etário e de gênero ajuda a desenhar o perfil predominante do apostador brasileiro identificado pelo Banco Central.

O valor apostado varia por faixa etária?

Sim. Apostadores de 20 a 30 anos apostam, em média, cerca de R$ 100 por mês. Já entre apostadores acima de 60 anos, a média mensal ultrapassa R$ 3.000, segundo o estudo.

As empresas de apostas retêm, em média, cerca de 15% do total apostado, de acordo com a metodologia usada pelo Banco Central para estimar esses números.

O estudo já fecha o retrato do mercado?

Não. O próprio Banco Central classificou os resultados como estimativas preliminares, sujeitas a premissas metodológicas, com a análise ainda em curso. O tema segue em discussão em outras frentes institucionais, como mostrou a reportagem Tema 924: julgamento do STF vira termômetro para as bets.

Onde está concentrado o dinheiro fora do CNAE oficial?

Além dos 520 CNPJs classificados no CNAE oficial de apostas, 56 CNPJs fora dessa classificação movimentaram, em média, R$ 235,7 milhões cada por mês, valor muito superior à média de R$ 576,9 mil por empresa registrada no CNAE oficial. Na prática, isso significa que cada uma dessas 56 empresas movimenta, em média, cerca de 409 vezes mais recursos que uma empresa formalmente registrada no CNAE de apostas, um indício, segundo a metodologia do estudo, de que o mercado não regulado rastreado pelo BC está concentrado em poucos operadores de grande porte.

Camila Duprat
Quem escreve: Camila Duprat
Advogada especializada em direito do jogo e compliance regulatório. Acompanha a regulamentação das apostas no Brasil desde a Lei 14.790/2023 e escreve sobre o que muda na prática para operadoras e afiliados.