Urgente Ouvidoria das bets: governo prepara novas regras
Mercados de Previsão

Mercado de previsão estreia dentro da B3

CVM autoriza a B3 a operar contratos de mercado de previsão restritos a investidores profissionais, via parceria entre Clear e Kalshi.

Por Fernanda Kato 27 de julho 4 min de leitura
Resumo CVM autoriza a B3 a operar contratos de mercado de previsão restritos a investidores profissionais, via parceria entre Clear e Kalshi.
Pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), com operadores diante de telas de cotações
Foto: Rafael Matsunaga, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons

A CVM autorizou a B3 a operar contratos de mercado de previsão, modalidade em que investidores negociam a probabilidade de eventos futuros em vez de comprar ações ou títulos diretamente. A liberação, confirmada pela própria bolsa no início do ano, restringe o acesso a investidores profissionais, categoria que exige mais de R$ 10 milhões alocados em ativos financeiros ou certificação técnica reconhecida pela própria CVM. Não é um produto para o investidor de varejo, ao menos por enquanto.

Os primeiros contratos já negociados levam os tickers PCA, referente ao IPCA, e PIB, ligado à variação trimestral do Produto Interno Bruto. Funcionam como opções binárias: o preço varia entre R$ 0 e R$ 100 conforme a probabilidade atribuída pelo mercado a um resultado específico do indicador. Quem acerta o desfecho recebe o valor máximo; quem erra, perde o que investiu. É a mesma lógica dos contratos “sim ou não” que popularizaram plataformas como Kalshi e Polymarket nos Estados Unidos, agora dentro do sistema financeiro regulado brasileiro.

A ponte entre esse universo e o investidor brasileiro veio de uma parceria fechada entre a corretora Clear, marca do grupo XP, e a própria Kalshi. Pelo acordo, clientes da Clear com conta de investimento internacional na XP International passam a acessar os prediction markets da corretora americana em ambiente offshore, sob regulação da Commodity Futures Trading Commission (CFTC), o órgão que supervisiona o mercado de derivativos nos Estados Unidos. A rota é inteiramente distinta do site da Kalshi bloqueado pela Anatel: a negociação corre pela corretora americana, com a XP funcionando como porta de entrada regulada para o cliente brasileiro.

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“A XP sempre teve como missão ampliar o acesso a novas formas de investir”, afirmou Lucas Rabechini, diretor de produtos financeiros da XP, ao anúncio da parceria. Luana Lopes Lara, cofundadora e COO da Kalshi, destacou o simbolismo de a XP ser a primeira corretora parceira da empresa fora dos Estados Unidos: “Como brasileira, não poderia estar mais animada em ter a XP como a primeira corretora parceira da Kalshi fora dos Estados Unidos.”

A distinção entre as duas frentes importa para o setor de apostas. Em abril, a Anatel bloqueou o acesso direto a dezenas de sites de mercado de previsão, entre eles o da própria Kalshi e o da Polymarket, com base em nota técnica do Ministério da Fazenda e em resolução do Conselho Monetário Nacional que vetam contratos vinculados a eventos não econômicos, caso de eleições e resultados esportivos. Contratos sobre indicadores como inflação e PIB, oferecidos por uma corretora autorizada e listados na B3, ficam fora dessa vedação. Na prática, o Brasil desenhou duas portas para o mesmo tipo de produto: uma fechada, outra regulada e crescentemente aberta a quem tem capital para acessá-la.

Entre a confirmação pública de que a CVM havia liberado a B3 para operar o novo mercado e o início efetivo das negociações dos contratos PCA e PIB, passaram-se ao menos 123 dias, quase quatro meses. O intervalo mostra que a autorização regulatória não se traduziu em produto disponível de forma imediata: entre um evento e outro houve trabalho de estruturação de infraestrutura de negociação, adequação de sistemas e, no caso da Clear, a costura do acordo com a Kalshi.

Para o mercado de apostas, o episódio reforça um movimento que já vinha se desenhando: a fronteira entre bets e mercado financeiro está mais porosa do que sugere a legislação setorial. Enquanto o Ministério da Fazenda e a Anatel fecham o cerco a plataformas de apostas em eventos não econômicos, a CVM abre caminho, dentro de seu próprio perímetro regulatório, para produtos com mecânica de aposta binária sobre variáveis econômicas. A régua que separa uma coisa da outra passou a ser o órgão que autoriza e o público habilitado a operar, não mais o formato do contrato em si.

O critério dos R$ 10 milhões mantém esse mercado, por ora, distante do bettor comum. Mas operadores, afiliados e fornecedores de apostas têm motivo para acompanhar de perto: se a CVM ampliar o público autorizado a negociar esses contratos, ou se o volume via Clear-Kalshi crescer a ponto de chamar atenção de outras corretoras, a formalização financeira de mercados de previsão pode se tornar uma alternativa regulada ao que hoje só existe na zona cinzenta bloqueada pela Anatel, caso do apetite já demonstrado por apostadores brasileiros nas eleições de 2026 na Polymarket.

Fernanda Kato
Quem escreve: Fernanda Kato
Analista de produto e dados de iGaming. Escreve sobre cassino online, apostas esportivas, loteria e eSports com foco em tecnologia e comportamento do mercado.
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