O contrato negociado no Polymarket sobre o resultado da eleição presidencial brasileira de outubro atingiu US$ 116.758.798 em volume acumulado, valor apurado diretamente na plataforma na noite desta quinta-feira (30/07). O número representa alta de 2,99% frente aos US$ 113,37 milhões registrados por esta reportagem em 17 de julho e avanço mais discreto, de 0,9%, sobre os US$ 115,72 milhões contabilizados oito dias depois, em levantamento publicado por este site em 24 de julho, quando o mercado eleitoral brasileiro já havia igualado o volume do pleito presidencial francês na mesma plataforma.
Em perspectiva, o valor negociado no contrato eleitoral brasileiro segue muito abaixo de eventos esportivos de grande escala, caso da Copa do Mundo, cujo mercado sobre o campeão somou mais de US$ 4 bilhões entre Polymarket e Kalshi ao longo do torneio. Ainda assim, a trajetória de crescimento constante ao longo de julho, mesmo sem um evento único que catalise picos de negociação, sugere um interesse mais estrutural do investidor internacional pela disputa presidencial de outubro do que oscilações pontuais ligadas a pesquisas eleitorais.
O avanço ocorre na esteira de uma decisão judicial favorável ao setor nos Estados Unidos. Na segunda-feira (27/07), a juíza federal Katherine Menendez, do distrito de Minnesota, concedeu liminar suspendendo a aplicação de uma lei estadual que criminalizava a operação de mercados de previsão naquele estado americano. A ação foi movida por Kalshi, Polymarket e pela CFTC, reguladora federal de commodities dos Estados Unidos, e a corte concluiu que a norma estadual provavelmente viola o Commodity Exchange Act, lei federal que rege contratos de swap e atribui à CFTC jurisdição sobre esse tipo de operação. A vitória judicial reforça a tese das duas plataformas de que mercados de previsão são instrumentos financeiros regulados em nível federal, e não jogos de azar sujeitos a legislação estadual.
No Brasil, o cenário regulatório segue mais restritivo. Desde abril, o Conselho Monetário Nacional proíbe a oferta de derivativos ligados a mercados preditivos no país, decisão que resultou no bloqueio de cerca de 27 plataformas do gênero, entre elas a própria Polymarket e a Kalshi. Na prática, o acesso de usuários brasileiros às duas exchanges segue restrito por determinação regulatória, mesmo com o contrato sobre o pleito nacional entre os mais líquidos da grade eleitoral da Polymarket, à frente de mercados como a sucessão do primeiro-ministro israelense, que somava US$ 29,1 milhões em levantamento anterior desta reportagem. Uma reportagem recente detalhou os termos da resolução do CMN e o impacto imediato sobre o acesso de investidores brasileiros a esse tipo de contrato.
A situação também está no radar da própria Kalshi, cuja cofundadora, a bilionária brasileira Luana Lopes Lara, já afirmou publicamente que o Brasil segue no roteiro de expansão global da companhia, avaliada em mais de US$ 22 bilhões. A chegada ao mercado brasileiro, no entanto, segue condicionada à evolução do debate regulatório em curso, que hoje divide opiniões entre tratar os contratos como derivativos financeiros, sob supervisão da CVM, ou como apostas, regidas pela Secretaria de Prêmios e Apostas. Uma análise sobre os riscos do setor aponta a dificuldade de supervisionar operações realizadas a partir de plataformas sediadas no exterior como um dos pontos que ainda travam uma regulamentação definitiva no país.
Enquanto a discussão brasileira não avança, uma alternativa doméstica ganhou capítulo próprio em abril, quando a B3 passou a oferecer contratos de mercado de previsão dentro de sua própria estrutura regulada, via distinta da adotada por plataformas internacionais que seguem operando o contrato eleitoral brasileiro a partir do exterior. A coexistência dos dois modelos, o regulado dentro da bolsa brasileira e o extraterritorial via Polymarket e Kalshi, deve seguir como um dos temas centrais do debate sobre mercados de previsão no país até a eleição de outubro.



