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Bets repassam R$ 773,9 mi ao esporte, mas dinheiro trava no caixa

No 1º semestre de 2025, bets injetaram R$ 773,9 mi em entidades esportivas, mas parte do dinheiro segue retida por falta de regras claras de uso.

Por Rodrigo Salgado 16 de agosto 4 min de leitura
Resumo No 1º semestre de 2025, bets injetaram R$ 773,9 mi em entidades esportivas, mas parte do dinheiro segue retida por falta de regras claras de uso.
Plenário do Senado Federal durante sessão solene dos 112 anos do Comitê Olímpico do Brasil (Foto de arquivo: sessão solene do Senado pelos 112 anos do Comitê Olímpico do Brasil (2026).)
Foto de arquivo: sessão solene do Senado pelos 112 anos do Comitê Olímpico do Brasil (2026). (Foto: Agência Senado CC BY-SA 4.0 via https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sess%C3%A3o_Especial_-_112_anos_do_Comit%C3%AA_Ol%C3%ADmpico_do_Brasil_(COB).jpg)

O dinheiro sai do caixa das casas de apostas, passa pela conta única do Tesouro Nacional e, em tese, chega às entidades esportivas do país, mas nem sempre segue esse trajeto até o fim. No primeiro semestre de 2025, as bets repassaram R$ 773,9 milhões a entidades esportivas e órgãos governamentais, um fluxo que já dá a dimensão do peso que o setor passou a ter no financiamento do esporte brasileiro, mesmo que parte desses recursos ainda não tenha sido efetivamente usada por quem deveria recebê-la.

Do total repassado no período, R$ 478,9 milhões foram destinados ao Ministério do Esporte, que se consolidou como o maior beneficiário individual entre as instituições contempladas pela lei. O Sistema Nacional do Esporte (Sinesp) recebeu R$ 154,9 milhões no mesmo intervalo, enquanto o Comitê Olímpico do Brasil (COB) ficou com R$ 47,5 milhões nos seis primeiros meses do ano, um valor que, como mostram dados levantados mais adiante neste texto, cresceu de forma expressiva ao longo do segundo semestre.

Em termos proporcionais, esse total representa 4,4% do faturamento bruto (GGR) das bets no período, que somou R$ 17,4 bilhões entre janeiro e junho. A regra que sustenta essa distribuição está prevista em lei: da receita bruta das casas de apostas destinada a causas sociais, 6,3% vão a entidades privadas, 86,4% seguem para a conta única do Tesouro, de onde são repartidos entre 11 órgãos governamentais, e 7,3% remuneram direitos de imagem de atletas.

Nem todo esse dinheiro, porém, chega de fato às mãos de quem deveria geri-lo. O próprio Ministério do Esporte afirmou que os recursos a ele destinados permanecem retidos na conta única do Tesouro Nacional e que, na prática, ainda não os recebeu. A situação se agrava porque o Ministério da Fazenda declarou não ter previsão de publicar qualquer norma que oriente o uso desses recursos pelas entidades esportivas, dizendo que elas podem empregá-los livremente, sem exigência de prestação de contas, um vácuo regulatório que ajuda a explicar por que parte do dinheiro simplesmente não sai do papel.

Enquanto essa engrenagem burocrática segue travada em pontos específicos, a arrecadação sobre o setor cresceu ainda mais no segundo semestre. A alíquota sobre o faturamento das bets subiu de 12% para 18% a partir de outubro de 2025, elevação que amplia a base de recursos disponíveis para os repasses obrigatórios justamente no momento em que entidades como o Ministério do Esporte ainda tentam destravar o que já lhes é devido.

O salto na arrecadação também aparece nos números consolidados de tributos: as bets recolheram R$ 6,8 bilhões em impostos em 2025, ante apenas R$ 38 milhões em 2024, um ano antes da regulamentação plena do setor. Mais de R$ 4 bilhões desse total vieram de impostos diretos e taxas de licenciamento, enquanto o restante correspondeu aos repasses obrigatórios ao esporte e a programas sociais, a mesma engrenagem que sustenta os valores recebidos por Ministério, Sinesp e COB.

No caso do Comitê Olímpico do Brasil, o balanço fechado ao longo de todo o ano de 2025 mostra um salto expressivo em relação ao que havia sido contabilizado até o meio do ano: o COB recebeu R$ 95,52 milhões em repasses de bets no acumulado anual, mais que o dobro do valor registrado até junho. O Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), por sua vez, recebeu R$ 57 milhões no mesmo ano. Nem todas as operadoras autorizadas cumpriram, no entanto, a obrigação: das 81 casas de apostas licenciadas, apenas 70 efetivamente repassaram os valores devidos ao COB em 2025, deixando 11 inadimplentes com a entidade.

É justamente diante desse cenário de recursos crescentes, mas ainda parcialmente represados por falta de regulamentação, que Marcelo Vido, dirigente do COB, resumiu a posição da entidade: “O COB aguarda a definição do governo federal sobre a regulamentação dos recursos.”

Rodrigo Salgado
Quem escreve: Rodrigo Salgado
Repórter de mercado e negócios. Cobre operadoras licenciadas, parcerias, movimentações executivas e o mercado de afiliados de apostas no Brasil.