Urgente Portaria fixa três avisos obrigatórios em bets
Casas de Apostas

Bodó (RN): fachada de prefeitura para bets ilegais

Receita Federal cumpriu 14 mandados na Operação Conto da Sorte contra esquema que usou entidade de Bodó (RN) como fachada nacional de bets ilegais.

Por Rodrigo Salgado 22 de agosto 4 min de leitura
Resumo Receita Federal cumpriu 14 mandados na Operação Conto da Sorte contra esquema que usou entidade de Bodó (RN) como fachada nacional de bets ilegais.
Logotipo oficial da Receita Federal do Brasil em fundo branco (Logomarca oficial da Receita Federal do Brasil (imagem de domínio público, não fotografada durante a operação).)
Logomarca oficial da Receita Federal do Brasil (imagem de domínio público, não fotografada durante a operação). (Foto: Ministério da Fazenda / Secretaria da Receita Federal do Brasil Public domain via https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Logo_Receita_Federal_do_Brasil.svg)

Agentes da Receita Federal cumpriram, em 18 de junho de 2026, 14 mandados de busca e apreensão que atingiram, ao mesmo tempo, endereços residenciais e comerciais espalhados por cinco cidades de três estados do Nordeste e do Sudeste, numa ação batizada de Operação Conto da Sorte. Os mandados foram cumpridos em Recife, Caruaru e Toritama, em Pernambuco, em Fortaleza, no Ceará, e nos municípios de São Paulo e Iguape, em São Paulo, alcançando sete pessoas físicas e seis empresas apontadas como núcleo de um esquema de apostas ilegais. A ação reuniu a Receita Federal, o Ministério Público do Rio Grande do Norte e o Gaeco de Pernambuco, numa cooperação que cruzou fronteiras estaduais para tentar fechar o cerco a uma estrutura que, segundo a Receita, operava sem qualquer autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas.

O que a investigação revela, porém, é a desproporção entre a origem formal do esquema e o tamanho que ele alcançou. No centro da engenharia societária estava a Lotseridó, entidade criada pela prefeitura de Bodó, cidade pequena do interior potiguar, que serviu de fachada de legitimidade para dezenas de plataformas de apostas espalhadas pelo país antes de ser oficialmente encerrada em outubro de 2025. Ao redor dela, apuradores identificaram 21 empresas de fachada registradas num mesmo endereço fictício em Bodó, todas usando laranjas como donos formais, uma arquitetura pensada para emprestar aparência institucional a um negócio que, segundo a Receita Federal, é suspeito de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro por meio de operação irregular de apostas.

A cobertura da Metrópoles mostra que a Lotseridó, apesar do porte modesto do município que a criou, repassou R$ 8,3 milhões à prefeitura de Bodó ao longo do funcionamento do esquema, um fluxo que ajuda a explicar por que a entidade seguiu operando por tanto tempo sem levantar suspeitas locais. Uma única empresa do grupo, isoladamente, registrou R$ 4,6 bilhões em créditos apenas em 2025, enquanto a receita declarada pelo conjunto das empresas investigadas somou cerca de R$ 415 milhões em dez meses de operação.

Em entrevista reproduzida pela CNN Brasil, o secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, situou a escala da organização em termos consolidados: a movimentação somada entre as 37 empresas identificadas no esquema chegou a cerca de R$ 50 bilhões, um número que dá dimensão nacional a uma estrutura que nasceu sob o guarda-chuva formal de uma prefeitura de pequeno porte. O bloqueio de bens e direitos até o limite de R$ 145 milhões, apontado pela Receita Federal como um dos resultados da operação, havia sido determinado judicialmente já em novembro de 2025, e sua execução ficou associada à fase ostensiva de busca e apreensão deflagrada em junho deste ano.

A Operação Conto da Sorte se insere num movimento mais amplo de fiscalização sobre o mercado de apostas no país. Desde 2025, a Secretaria de Prêmios e Apostas e a Anatel já bloquearam mais de 40 mil sites e aplicativos de apostas ilegais em território nacional, enquanto o governo federal estima que cerca de 40% das plataformas em operação no Brasil funcionem de forma irregular, com indícios de ilegalidade em até 51% dos jogos oferecidos e alcance a mais de 25 milhões de brasileiros. Um dia depois da operação em Bodó e no Nordeste, em 19 de junho de 2026, o presidente Lula assinou medidas que obrigam bancos a bloquear recursos ligados a bets ilegais no país, ampliando o instrumental usado contra esquemas como o investigado.

Como parte da cooperação entre os órgãos envolvidos, a Receita Federal doou equipamentos eletrônicos ao Ministério Público de Pernambuco durante a execução da operação, um gesto que reforça o caráter conjunto da apuração entre instituições federais e estaduais. A leitura da notificação da Fazenda a 37 fintechs, feita meses antes para bloquear pagamentos de casas de apostas ilegais, ajuda a situar a Conto da Sorte dentro de uma sequência de ações que passou a mirar não só as plataformas, mas toda a cadeia de fachadas societárias e financeiras que sustenta o mercado irregular.

Barreirinhas resumiu o significado do número consolidado pela investigação: “50 bilhões é a somatória da movimentação entre 37 empresas identificada em cada um dos componentes dessa organização”.

Rodrigo Salgado
Quem escreve: Rodrigo Salgado
Repórter de mercado e negócios. Cobre operadoras licenciadas, parcerias, movimentações executivas e o mercado de afiliados de apostas no Brasil.