Urgente Portaria fixa três avisos obrigatórios em bets
Legislação

STF adia julgamento de jogos de azar e o funde com bets

STF suspendeu o julgamento sobre jogos de azar após vista de Dino, que pediu decisão conjunta com as ADIs da Lei das Bets, com retomada prevista para novembro.

Por Camila Duprat 26 de agosto 4 min de leitura
Resumo STF suspendeu o julgamento sobre jogos de azar após vista de Dino, que pediu decisão conjunta com as ADIs da Lei das Bets, com retomada prevista para novembro.
Interior do plenário do Supremo Tribunal Federal em Brasília, com bancada dos ministros, bandeira do Brasil e brasão ao fundo (Foto de arquivo do plenário do STF, sem relação direta com a sessão específica do julgamento.)
Foto de arquivo do plenário do STF, sem relação direta com a sessão específica do julgamento. (Foto: Supremo Tribunal Federal (STF) CC BY-SA 3.0 / GFDL 1.2+ via https://commons.wikimedia.org/wiki/File:STF_Plenario.jpg)

O Supremo Tribunal Federal suspendeu, em 6 de agosto de 2026, o julgamento sobre a validade da proibição penal aos jogos de azar depois de um pedido de vista do ministro Flávio Dino, segundo apurou o InfoMoney. A pausa não representa recuo no mérito: os dois votos já proferidos até aqui mantêm a criminalização de práticas como bingo, jogo do bicho e caça-níqueis, previstas na Lei de Contravenções Penais de 1941.

O motivo do adiamento pesa mais para o mercado regulado do que o resultado provisório. Dino pediu que o caso seja decidido em conjunto com as ações que discutem a Lei das Bets, o que empurra qualquer desfecho definitivo para depois de uma análise combinada de duas frentes regulatórias que, até agora, tramitavam separadas.

Por que o STF decidiu esperar?

O relator, ministro Luiz Fux, já havia votado pela manutenção da proibição aos jogos de azar. Dino acompanhou esse entendimento, mas condicionou seu voto a um pedido de vista para que o desfecho saia junto com as ADIs 7721 e 7723, que questionam a Lei 14.790/2023.

A lógica do ministro apareceu em plenário. “Se dissermos que jogo de azar é contravenção, estamos falando que bet é contravenção? Se não é, por quê?”, questionou Dino, segundo o STF. A pergunta resume o incômodo: tratar bingo e caça-níqueis como crime enquanto as apostas on-line operam sob lei própria criava uma assimetria que a Corte já havia colocado em 2 a 0 pela criminalização antes da pausa.

O que a fusão com as ADIs das bets muda para o setor regulado?

A Procuradoria-Geral da República já havia ajuizado ação própria questionando as leis que autorizam e regulam as apostas. Com a decisão de esperar, esse questionamento entra no mesmo pacote de análise que vai definir o destino da criminalização do jogo de azar tradicional.

O peso disso é maior do que parece à primeira vista: o caso tem repercussão geral reconhecida, o que significa que a decisão final vinculará todas as instâncias inferiores do país. E essa repercussão geral não é recente, foi fixada em novembro de 2016, o que coloca a matéria tramitando na Corte há quase uma década antes de qualquer sinal de conclusão.

Quantos processos aguardam a decisão do STF?

Segundo o STF, ao menos 2.728 processos semelhantes em todo o país estão suspensos aguardando o desfecho do caso. O relator, ministro Luiz Fux, chegou a afirmar que a incapacidade de conter o impulso de apostar pode ser incrementada e levada ao extremo pelo modo de operação das apostas, o que, na avaliação dele, exige atenção redobrada do poder público.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, também já havia se manifestado pela manutenção da criminalização dos jogos de azar, citando riscos de dependência e impactos sociais como argumento central de sua defesa perante a Corte.

Que parâmetros Dino sugeriu para a futura decisão?

Ao pedir vista, Dino não se limitou a adiar o caso: indicou balizas que podem orientar o julgamento conjunto. Entre elas:

  • Destinação de parte da receita das apostas ao SUS, para prevenção e tratamento do vício em jogo;
  • Restrições à publicidade de apostas voltada a crianças e adolescentes;
  • Mecanismos de combate à manipulação de resultados esportivos.

O ministro também comparou o rigor aplicado ao jogo do bicho com a ausência de tratamento equivalente para as apostas on-line: “Não me parece que possamos, a essa altura, dar um tratamento rigoroso ao jogo do bicho e ignorar este dragão”, disse, segundo o STF.

Quando o julgamento deve ser retomado?

Dino tem até 90 dias para devolver o processo com vista, o que, segundo a CNN Brasil, deve levar à retomada do julgamento até novembro de 2026. Até lá, os 2.728 processos suspensos e as duas ADIs sobre a Lei das Bets seguem no mesmo compasso de espera, sem sinalização prática sobre qual será o desenho final da regra.

Para quem opera ou assessora o mercado regulado, o dado concreto por enquanto é o que já está em vigor: o artigo 50 da lei de 1941, que segue prevendo pena de três meses a um ano de prisão simples, além de multa, para quem explora jogos de azar fora do que a legislação autoriza.

Camila Duprat
Quem escreve: Camila Duprat
Advogada especializada em direito do jogo e compliance regulatório. Acompanha a regulamentação das apostas no Brasil desde a Lei 14.790/2023 e escreve sobre o que muda na prática para operadoras e afiliados.