Apostadores brasileiros movimentaram entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões por mês em plataformas de apostas online ao longo de 2024, segundo estudo técnico do Banco Central que também mapeou o perfil dos apostadores e a presença de beneficiários do Bolsa Família nesse público. O levantamento, batizado de Estudo Especial nº 119, ganhou um capítulo mais recente em abril de 2025, quando dirigentes da autarquia disseram ao Senado que o giro mensal já pode estar próximo de R$ 30 bilhões e que apostadores enfrentam mais dificuldade para tomar crédito.
O estudo foi feito pelo Banco Central a pedido do senador Omar Aziz (PSD-AM) e tenta medir o tamanho do setor a partir das transferências via Pix recebidas pelas empresas de apostas. A tarefa esbarra em um obstáculo prático: boa parte dessas companhias não está enquadrada no CNAE específico de jogos de azar e apostas (9200-3/99). Para contornar o problema, o BC precisou identificar empresas de apostas escondidas em outros códigos de atividade, cruzando critérios como volume de transações, ticket médio e concentração de horários típicos do setor.
Em agosto de 2024, mês de referência do levantamento, essas 56 empresas identificadas fora do CNAE correto receberam R$ 20,8 bilhões em transferências, contra apenas R$ 300 milhões movimentados pelas 520 empresas já corretamente classificadas no código de apostas, diferença de quase 70 vezes. Somando as duas frentes, o valor bruto apostado ficou em R$ 21,1 bilhões naquele mês, dentro da faixa de R$ 18 bilhões a R$ 21 bilhões observada mensalmente em 2024. O BC estima que cerca de 15% desse total é retido pelas operadoras, com o restante devolvido em prêmios.
O levantamento identificou 24 milhões de pessoas físicas que fizeram ao menos uma transferência via Pix para apostas no período. A faixa etária dominante é a de 20 a 30 anos, mas o valor médio gasto cresce com a idade: apostadores mais jovens movimentam cerca de R$ 100 por mês, enquanto os com mais de 60 anos ultrapassam R$ 3.000 mensais.
O estudo dedicou atenção especial aos beneficiários do Bolsa Família. Cruzando a base de cadastrados no programa em dezembro de 2023, o BC calculou que 5 milhões de beneficiários enviaram R$ 3 bilhões via Pix a empresas de apostas em agosto de 2024, com mediana de R$ 100 por pessoa. Desse grupo, 4 milhões (70%) são os próprios chefes de família que recebem o benefício, responsáveis por R$ 2 bilhões (67%) das transferências, o equivalente a 17% de todos os cadastrados no programa apostando naquele mês. Na conclusão, o texto do BC afirma: “O BCB está atento ao tema e precisa ainda de mais dados e tempo para avaliar com maior robustez suas implicações para a economia, a estabilidade financeira e o bem-estar financeiro da população.”
O tema ganhou desdobramentos após a publicação do estudo. Em setembro de 2024, ainda à frente do BC, Roberto Campos Neto disse à imprensa que via risco de “ter um canal de crédito e um canal de apostas muito conectado”, o que poderia “levar a uma inadimplência um pouco maior”. Sete meses depois, em depoimento à CPI das Bets do Senado, em 8 de abril de 2025, o secretário-executivo do BC, Rogério Lucca, atualizou a estimativa de giro mensal do setor: “Com base nessa identificação e com dados mais concretos, a gente ratificou esse valor de R$ 20 bilhões. Mais recentemente, podemos chegar a R$ 30 bilhões por mês.” Na mesma sessão, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, associou o crescimento das apostas a um custo maior de crédito: “Ao analisar que o risco de inadimplência é maior para quem aposta, o custo acaba sendo mais elevado para essas pessoas que fazem empréstimo.”
Os R$ 20 bilhões citados por Lucca como referência anterior ficam muito próximos dos R$ 21,1 bilhões que o próprio estudo já havia apurado em agosto de 2024, o que reforça a consistência da métrica ao longo do tempo. Tomando esse valor como base, o salto para R$ 30 bilhões mensais representa um crescimento de aproximadamente 42% em cerca de oito meses, período que coincide com a regulamentação do setor, em vigor desde janeiro de 2025, que passou a exigir contas específicas nas instituições financeiras e facilitou o rastreamento dos valores movimentados pelas casas de apostas.
O recorte social do estudo ajuda a entender outras medidas em curso. O Cadastro Único do governo federal passou a bloquear transferências via Pix identificadas como apostas para beneficiários de programas sociais, movimento que dialoga com o achado do BC sobre o peso das apostas no orçamento de famílias do Bolsa Família. Do lado da oferta, o mapeamento mais recente de licenças do setor contabilizava 82 empresas autorizadas e 188 marcas em operação regular, número bem menor que o universo hoje rastreado informalmente pelo Banco Central via Pix. O crescimento do volume apostado coincide com a alta na arrecadação de impostos sobre bets no país.
O Banco Central pondera que os resultados são preliminares e sujeitos aos critérios adotados na identificação das empresas, mas trata o acompanhamento do setor como prioridade para avaliar riscos à estabilidade financeira e ao bem-estar da população.


