A Esplanada dos Ministérios, em Brasília, sedia hoje o comando de uma operação que já resultou na saída de 15.463 páginas de apostas ilegais do ar, número que a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA-MF) apresenta como medida do avanço da fiscalização sobre o mercado clandestino de bets no país. O total soma os bloqueios executados pela Anatel entre outubro de 2024 e o fechamento do primeiro semestre de 2026, período em que as regras de controle e monitoramento do mercado de apostas passaram a valer de forma plena. O balanço foi apresentado publicamente em 26 de agosto.
Enquanto a fiscalização avançava contra domínios ilegais, o mercado autorizado seguia se consolidando sob supervisão direta da SPA-MF, que hoje monitora 78 empresas autorizadas responsáveis por 182 plataformas de apostas licenciadas para operar no país, proporção que mostra que boa parte das empresas mantém mais de uma marca ativa no mercado brasileiro. O crescimento do número de operadoras licenciadas já havia sido tema de outro balanço da própria SPA-MF, que em agosto autorizou 188 casas de apostas no Brasil em nova leva de licenciamento, movimento que reforça a trajetória de expansão do segmento regulado observada ao longo do ano.
Do total de empresas autorizadas, 76 já reportam dados ao sistema Sigap, a ferramenta usada pela SPA-MF para acompanhar as operações informadas pelas próprias bets ao longo do semestre. Com base nesse acompanhamento, a fiscalização abriu 66 processos fiscais envolvendo 93 operadoras de apostas, dos quais 35 já resultaram em sanções aplicadas às empresas investigadas.
O cerco também passou pelo sistema financeiro, terreno em que 24 instituições enviaram 277 comunicações às autoridades sobre movimentações suspeitas ligadas a apostas ao longo do semestre, um volume de alertas que antecedeu o encerramento de contas registrado no mesmo período. O resultado foi o encerramento de 255 contas de pessoas físicas e jurídicas, entre elas as de 45 empresas identificadas com atuação irregular no mercado de apostas de quota fixa. Outras 13 instituições de pagamento foram notificadas para encerrar contas vinculadas a plataformas ilegais, movimento que se soma às demais frentes de fiscalização abertas contra o mercado clandestino no período.
O outro lado do balanço mostra o tamanho do público que hoje aposta dentro da legalidade: 17,7 milhões de brasileiros usaram sites e aplicativos de bets autorizadas no primeiro semestre, sendo 71% homens e 28,9% mulheres, concentrados na faixa de 31 a 40 anos, que responde por 27,8% do total. Os apostadores de 18 a 25 anos somam 22,4% do público identificado, e os de 25 a 30 anos representam 22,2%, distribuição que mostra um mercado regulado presente entre adultos jovens e de meia-idade em proporções semelhantes.
O Gross Gaming Revenue (GGR) do mercado regulado somou R$ 17,4 bilhões no primeiro semestre, com gasto médio de R$ 983 por apostador ativo no período, o equivalente a R$ 164 por mês por pessoa que apostou em plataformas autorizadas. A arrecadação federal com o setor chegou a cerca de R$ 3,8 bilhões no semestre, dos quais R$ 2,2 bilhões vieram de taxas de autorização pagas pelas operadoras licenciadas e R$ 50 milhões, de taxas de fiscalização recolhidas ao longo do período.
A dimensão do combate ao mercado ilegal aparece também em levantamento que extrapola o balanço oficial do primeiro semestre: ao longo de 2025, segundo apuração da ConvergenciaDigital, a Anatel já havia bloqueado quase 50 mil sites de apostas ilegais, sob responsabilidade de cerca de 350 operadores que usavam 37 instituições financeiras de baixa supervisão para movimentar recursos. O combate ganhou reforço jurídico em 19 de junho de 2026, quando o presidente Lula assinou o Decreto nº 13.033/2026, que instituiu um mecanismo de bloqueio imediato de recursos ligados a apostas ilegais, ferramenta que passou a integrar o conjunto de medidas usadas pelo governo federal contra operadoras não autorizadas.
Para o secretário da SPA-MF, Regis Dudena, a divulgação consolidada desses números tem peso institucional que vai além da estatística isolada. “Este balanço tem uma importância fundamental”, afirmou Dudena ao comentar os resultados do primeiro semestre.



